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27 março 2012

A prova de que ser aluno de Medicina mudou muito pouco ao longo dos tempos

Ao longo dos tempos, o aluno de Medicina sempre fez figura de parvo:

".... e os estudantes de Medicina servem como funcionários no hospital. Os médicos visitam o hospital (...) e os estudantes colam-se a estes homens, que lhes permitem examinar pacientes e propor tratamento. Os médicos fazem intermináveis perguntas instrutivas. É uma esplêndida oportunidade para se aprender ou - mostrou um sorriso azedo - para fazermos de nós próprios uns estúpidos completos."

(O que eu me ri com esta parte...)

Sempre teve a casa desarrumada:

"Ter-lhe-ia agradado tornar a pequena casa (...) melhor (...). O trabalho teria levado alguns dias, no máximo, mas uma hora tornara-se uma comodidade preciosa, e assim os peitoris das janelas continuavam por reparar (...). O homem fez-lhe uma mesa de madeira (...) e uma cadeira de pinho ao estilo europeu. Comprou alguns utensílios de cozinha (...). Para além disso, preocupava-se tão pouco com a casa que poderia ter estado a viver numa caverna".

Não perde tempo com (quase) nada:

"Vendeu o burro e a mula para não ter de perder tempo a tratar deles e a dar-lhes de comer. Comia as suas refeições rapidamente e sem prazer, e na sua vida não havia lugar para a frivolidade."

Adormece por cima dos livros:

"Todas as noites lia até não poder mais, e aprendeu a colocar quantidades minúsculas de azeite nas suas lamparinas, para que se apagassem sozinhas depois da cabeça lhe ter caído sobre os braços e ter adormecido à mesa, sobre os livros." 

E, no fundo, quase que se mata pelo caminho:

"Agora sabia porque motivo Deus lhe dera um corpo grande e forte e bons olhos, pois forçava-se até ao limite da sua resistência ao tentar fazer de si um erudito."

Extractos retirados do livro "O médico de Ispahan", de Noah Gordon, que retrata a vida de um estudante de Medicina no ano mil e tal DC.

Poupei os extractos que provam que os professores também não mudaram assim tanto (estilo, ler 20 livros para ontem) e que tem que se saber muita coisa que não interessa (no caso, Filosofia).
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26 fevereiro 2012

Sobre o número de vagas em Medicina

A recente publicação nos diferentes jornais online da posição da ANEM (Associação Nacional de Estudantes de Medicina) sobre o aumento dos números clausus deu origem a um infindável jorrar de comentários nos quais os estudantes de medicina são alvo de crítica e apelidados de escória, fascistas, mercenários - e isto para citar apenas alguns exemplos. Há até quem defenda o fim da profissão (!).

Ora vamos lá ver:

1. Proteccionismo? De quem?

Acusam os estudantes de Medicina de proteccionismo, mas pensem lá comigo:

Licenciatura: 6 anos
Ano Comum: 1 ano
Especialidade: No mínimo 4 anos

Um aluno que esteja agora, por exemplo, no 5º ano, vai estar a acabar a especialidade quando quem entrar no próximo ano lectivo estiver a acabar a licenciatura - e um recém licenciado não tira emprego a nenhum especialista.

2. Proteccionismo? E porque não?

Tentar impedir a formação das pessoas para o desemprego não é um erro. Antes pelo contrário. Todos os professores, advogados e engenheiros deste país deviam ter tido a sorte que alguém pelo menos tentasse fazer o mesmo nas suas áreas. E não me venham com lirismos - ninguém quer estar anos a estudar para ficar sem emprego.
Os números clausus deveriam reflectir as necessidades. Num país onde o Primeiro Ministro é o 1º a assumir a sua incapacidade de mudar a situação económica e pede aos jovens para emigrar, a população em geral prefere voltar-se contra os únicos que ainda parecem ter alguma esperança de empregabilidade - e assim ver o dinheiro dos seus impostos a ser desperdiçado em licenciaturas que, no fundo, são um investimento sem retorno, pois os licenciados não encontram emprego na sua área.

3. Qualidade de ensino - não é mentira, está mesmo a ser posta em causa

As faculdades não são elásticas. De momento, os anfiteatros estão pelas costuras, de forma que os alunos têm muitas vezes que se sentar no chão. É cada vez maior o número de alunos por tutor e sim, isso compromete a capacidade de ensino. Até porque há bom senso - e não se submete o doente a 10 exames objectivos sob mãos diferentes. Assim sendo, perdem-se casos, perde-se experiência.
O meu ano foi o 1º em que não houve autópsias - precisamente por já sermos muitos. Somos tantos alunos nos hospitais que começam a circular piadas do tipo "ficas tu com a metade esquerda e eu com a direita".

Posto isto, não me venham dizer que não interessa a qualidade do ensino ser prejudicada e que isso acontece também noutras licenciaturas. A falta de experiência é o 1º passo na direcção do erro! E é do interesse de todos que os médicos tenham a oportunidade de a adquirir.

Não me venham com conversas - num momento de necessidade, todos queremos que o médico que nos atende seja o mais competente possível. Há, claro, pessoas competentes e incompetentes em todo o lado. Há médicos que não mereciam um ordenado ao fim do mês? Haverá, certamente. Mas há também muitos cuja dedicação e empenho não encontram remuneração suficiente em nenhum escalão de ordenados.

Há queixas em relação à falta de especialistas, mas não vi ninguém contra o aumento de vagas para Medicina Geral e Familiar em detrimento de outras especialidades. A formação complementar nas diferentes especialidades está de momento a ser posta em causa, precisamente porque os hospitais com capacidade formativa não têm capacidades para receber tantos recém-licenciados - pois então que se dê capacidade formativa a outros hospitais. Não há falta de médicos, há má distribuição - e esse deveriam ser a verdadeira luta de todos.

A formação de um médico dura, no mínimo, 11 anos - e gostava de saber quanta gente estaria disposta a semelhante sacrifício para depois ir para o desemprego. E não me venham dizer que quem entra em Medicina o faz pelo dinheiro - há de tudo, como em todo o lado. Se queremos emprego garantido? Claro, como qualquer pessoa, licenciada ou não, quer. Porque haveriam os médicos de ser diferentes?

A população portuguesa, em vez de defender aquele que é o melhor serviço público do país - o SNS - prefere esfregar as mãos de contente perante a possibilidade de os médicos não terem emprego. Já que estamos mal, eles que fiquem mal também.

Num país em que fica tudo indignado porque o ex-primeiro ministro tem um diploma passado num Domingo, não há indignação pelo facto de se estar a por a causa a qualidade do diploma de quem lhes trata da saúde - o que, convenhamos, é capaz de ser bem pior.
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