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21 março 2012

Porque hoje é o Dia Mundial da Poesia e é mais ou menos assim que me sinto

CansaçoO que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada: 
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, 
Cansaço. 

A subtileza das sensações inúteis, 
As paixões violentas por coisa nenhuma, 
Os amores intensos por o suposto em alguém, 
Essas coisas todas — 
Essas e o que falta nelas eternamente —; 
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito, 
Há sem dúvida quem deseje o impossível, 
Há sem dúvida quem não queira nada — 
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: 
Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 
Ou até se não puder ser... 

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, 
Íssimno, íssimo, íssimo, 
Cansaço... 

Álvaro de Campos
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05 dezembro 2011

Pizza e preconceito


Ontem fiquei chateada, muito mesmo, porque uns malandros do bairro social perto da minha casa decidiram assaltar o senhor que vinha cá entregar a pizza que tínhamos encomendado. O homem, coitado, ligou a contar o happening - e, claro, não voltou - enquanto os víamos daqui da janela a festejar.

Ora isto chateia. Porque depois de um fds atribulado apetecia-nos mesmo uma pizzazinha e um filme. Porque assim de repente e sem estarmos prevenidos, acabamos a comer massa e salsichas. E porque ficou loiça para lavar, claro, e não me faltou vontade de ir lá levá-la para os meninos a lavarem. (Já para não falar do meu peso de consciência pelo prejuízo que os senhores tiveram....)

Mas sabem o que chateia mais?

É que eu não sou de julgar ninguém pela cor da pele, nacionalidade ou tendência sexual. Tenho, claro, pré-conceitos. E quem diz que não tem, mente.

Está estudado: as feições de uma pessoa, a sua imagem geral, é por nós inconscientemente analisada, fazendo com que sintamos ou não empatia. E julgamos pessoas a toda a hora. Uma mulher vestida de determinada maneira parece-nos fácil, a outra intelectual; um homem parece-nos surfista, o outro metaleiro. Os alentejanos são preguiçosos, os italianos excêntricos, os brasileiros barulhentos.

São generalizações, que enquanto forem entendidas como tal, à laia de piada e sabendo que existem inúmeras excepções à regra,  não fazem mal a ninguém. Quando generalizadas mesmo, passam a preconceito. A racismo.

E faz parte de cada um, individualmente, lutar contra os preconceitos. Uma luta que não é só de quem os tem - é também de quem os sente na pele. De que me vale ficar chateada por dizerem que os transmontanos são asneirentos e depois dizer asneiras por dá-cá-aquela-palha, a toda a hora?

O mesmo se passa com as minorias étnicas. As casas são dadas, o estacionamento é o único que não é pago. Têm rendimentos sociais e sei lá o quê mais. Tudo bem, eu sou a favor de ajudar quem precisa - se bem que com a certeza de que se eu ficasse sem nada, o estado me fazia um belo de um manguito.

Mas, com a sujidade que por lá vai, o barulho e agora isto... Sinto-me a ir pelo caminho do preconceito. E isso, preconceituosa, é coisa que nunca quis ser. Estes senhores estão, claramente, a tornar-me a tarefa difícil. E isso, sim, é o que me chateia mais desta história toda.

Até porque, se me pedissem, eu era gaja burra para partilhar a pizza.
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24 novembro 2011

Acabei o meu 1º "livro num kindle"


E a coisa é para repetir, mas há claramente arestas a limar... Eu explico.

Adquiri esta pérola da tecnologia a meias com a minha cara metade numa loja do aeroporto de Londres, depois de pesados os prós - que para ele, que se farta de ler em transportes, eram óbvios - e os contras - que, claro, vinham de mim.

Confesso que o meu acto de rendição começou uns meses antes, precisamente no metro, quando um passageiro portador de uma tecno-coisa misteriosa que uns minutos depois reconheci como um Kindle se implantou do meu lado direito (um dado altamente relevante... ou não) e eu olhei para o ecrã e gostei. Tem aspecto daquelas folhas de jornal, branco acinzentado - mas sem manchar os dedos.

A história de como comecei a ler o livro no kindle fica para depois, mas em suma, fiquei rendida. É altamente transportável, sim, o que me permitiu ler mais - nas esperas no dentista, nas esperas em cafés, nas esperas em geral e, sim, nos transportes. Pesa pouco, logo ao contrário dos livros consigo levá-lo comigo para todo o lado - e é quase um back-up - se não sei se vou estar à espera, lá vai o kindle para mala, just in case. Ah e na cama também é simpático, evita contorcionismos de punho.

Claro que tenho o livro que li no seu formato real - uma estrutura física, com capa, páginas e cheiro. Claro que comecei a ler o livro - o livro mesmo - antes de o retomar no kindle. Mas depois nunca mais o abri.

Portanto: kindle, sim. Pode-se personalizar o tipo de letra e o espaçamento entre linhas e basta um click para ver o significado de uma palavra num dicionário - o que no meu caso dá um jeitão, porque leio em inglês (há muitas palavras cujo significado é intuído pelo contexto geral, mas agora apanhei o hábito do click para saber o significado concreto - e em livros reais já lhe noto a ausência).

Problemas?

Eu não sei como é por aí, mas eu cá tenho um ritual no que diz respeito à escolha do que vou ler a seguir. Pego numa mão cheia de candidatos, coloco-os em pilha, leio as contra-capas, abro, folheio, cheiro, leio ao acaso. Faço isto com todos até ter um eleito.

E isto tu, Kindle amigo, não me permites (ainda?) fazer.
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18 novembro 2011

Sobre a ignorância dos estudantes universitários em geral - e da minha em particular

Ora andou por aí a circular o belo do vídeo-reportagem sobre a ignorância dos nossos universitários. E eu, movida pela chalaça inerente à coisa, ignorei a voz que cá no fundo me dizia eh pah, não podem ter respondido todos, todos assim e vou na onda de partilhar a coisa. Afinal, para desgraças já chega o dia a dia e as notícias e aquela sempre era uma desgraça com graça. E, enfim, eu, ainda estudante universitária para todos os efeitos, juntei-me levianamente ao coro trágico do eco "ai esta geração". Porque bom, sendo mais velha que boa parte dos meus colegas, há um certo gap geracional que origina, por um lado, situações engraçadas (do estilo os meus colegas quase não se lembrarem do happening da expo 98 - porque tinham 10 anos), mas que por outro aumenta consideravelmente o nº de rugas que eu encontro procuro quando me vejo ao espelho*. Facto imperdoável, como se compreende.

É o go with flow, mas ler isto pôs-me a pensar.

Pensei, por exemplo, que se fizessem perguntas de História, seria eu a fazer figura de ursa. Que, como muito bem expressa o Bruno Nogueira aqui, há culturas grandes e pequenas em todas as idades, classes e profissões e que, acima de tudo, a cultura é uma variável dependente do contexto, dos interesses e, em última análise, da idade. Que a sobre-especialização a que chegamos em diferentes campos de interesse torna cada vez mais verdadeira a expressão cada macaco no seu galho - e que por isso mesmo o trabalho de equipa é, em muitos casos, o único que faz sentido.

Por isso, quero desde já deixar aqui o meu pedido de desculpas aos intervenientes.

Acima de tudo, a reportagem da dita revista perdeu toda a sua credibilidade. Pelos métodos usados e denunciados mas, acima de tudo, porque numa altura em que o País precisa de auto-estima, união e confiança nos pares, fez um excelente serviço público no que respeita à descredibilização daqueles que, no futuro, serão os maiores responsáveis pelo País. A malta agradece.

Afinal, somos todos simples humanos.




* mas, claro, venham-me falar cá de ladys gagas e afins que eu digo logo que a música antes é que era boa e que agora só há biebers e, enfim, cacas de músicas e gajas nuas. Aí não há volta a dar.
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Desculpe, mas não concordo

(Porque nem em tudo há um certo e um errado).


*Post escrito com a gata ao colo, assistindo atentamente ao Top Gear. True story.
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11 novembro 2011

É por estas coisas que eu e a religião não nos damos muito

Não sei se já viram esta notícia, mas resumindo, uma velhota doou a casa ao Santuário de Fátima e agora, com 80 anos, vê-se confrontada com uma acção de despejo, por parte do próprio santuário - porque a casa não é dela.

Pormenores legais à parte, se doou a casa toda ou não, se é dela ou não, que isso não me interessa para nada, mais do que o Direito entra aqui a Moral, que na minha maneira dever as coisas se sobrepõe a qualquer lei. E não há moral que justifique o facto de se pretender desalojar uma pessoa de 80 anos da própria casa, sobretudo por parte da entidade beneficiária da doação. Mais ainda quando pertence ou de alguma forma está ligada à igreja. Típico faz o que eu digo, não faças o que eu faço.

É por estas e por outras que eu acho que o cristianismo seria uma boa religião, não fosse a igreja a estragá-lo.

                                                           "Religion; you're doing it wrong"


(E esta imagem resume a minha opinião sobre aqueles que vão à igreja todos os Domingos para ter um lugar no céu mas não são capazes de dar umas sandes a um pobre. Se fosse eu a porteira do céu, ficavam na rua. Só para que saibam.)
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